Lidio Macacão

Acervo http://www.onordeste.com – Álbum da Família
autor de Três da Tarde – (ouça aqui)

Lídio Macacão, o marceneiro que compunha música de ouvido e tocava serrote

Lídio Francisco da Silva
-Lídio Macacão-
carnavalesco e compositor, nasceu na Rua do Amparo esquina do Beco das Cortesias, hoje em frente ao Museu do Mamulengo, Olinda, Pernambuco, em 1892.

O local onde Lídio nasceu foi onde saiu pela última vez, em 1948, o Bloco Lírico Guaiamum na Vara, e, em 1952, pela primeira vez foi executado pelo maestro Milcíades Neves e o porta-estandarte era Élcio Siqueira o Hino de Helefante na presença dos dois compositores e Clóvis Vieira.

Nesta ocasião, Clóvis Vieira confidenciou ao seu parceiro Clídio Nigro:

– Tenente, nós fazemos estas besteiras e o pessoal canta na maior animação.

Entre as canções compostas por Lídio Macacão, destacam-se: Escama de Peixe (1924), Três Coronéis (1925), Condessa (1925), Campo Grande (1926), Campeão de 26 (1926), Rosarinho, Morcego, Morcego n° 2, Papagaio, Cara-Cara, Pic-Nic, Regresso dos Donzelinhos (1957) e Música, Mulheres e Flores.

Enquanto vivo, não teve a projeção que merecia, só depois de sua morte sua obra foi reconhecida.

Morreu, de problemas cardíacos, a 21 de março de 1961, deixando três filhos: João Lídio, Cidália Maria e Maria Cecília.

O PRECONCEITO POR TRÁS DO MACACÃO

Filho de pais africanos, Lídio foi cozinheiro do Clube Náutico Capibaribe e costumava trabalhar vestindo um macacão. Daí a origem do seu apelido.

O apelido tinha a marca do preconceito racial pois também se referia ao seu porte grande de negro e tentava associá-lo a um macaco gigante.

O CONDE DO GUADALUPE

Por conta de sua profissão de marceneiro, Lídio fez muitas amizades com seus clientes, na sua maioria, ricos proprietários de móveis e cadeiras empalhadas. E ele sempre arranjava uma maneira de receber por seus serviços além do dinheiro, é claro, ternos preto ou azul marinho, ou os de linho branco.

Sempre que saía de casa, vestia um paletó na maior beca. Ia buscar móveis para consertar de terno. Isso causava inveja nos seus vizinhos do bairro que, por ironia, lhe apelidaram de O Conde do Guadalupe.

O pessoal do Guadalupe não aceitava o fato de ele andar de terno, achava esnobe e de forma bem-humorada, com um ajuda do preconceito, gritava quando ele apontava na rua:

– Olha o Conde!
Lídio nem ligava e respondia do seu jeito habitual:
– Diga entidade!

MÚSICA PARA CONDESSA

A Condessa (1924) – Lídio Macacão

Se queres um dia ver e crer e crer
O que se deve apreciar
Como Vassourinhas em Olinda
Acredite que não tem outro igual
Vem, vem, vem os carinhos que a Condessa tem
Cheios de risos e de beleza
É uma deusa pelo carnaval
Que lindo ideal
Vem, vem, vem conquista a tardezinha
Vem com seus passos delicados
Vem dizer que tu és Vassourinhas

MARCENEIRO QUE COMPUNHA MÚSICA DE OUVIDO E TOCAVA SERROTE

Lídio não entendia de partitura musical. Compunha “de ouvido”. Decorava a música. E depois pedia ajuda a algum maestro para escrever a partitura.

Trabalhava como mestre envernizador de móveis e empalhava cadeira, mas, nas horas vagas, ficava cantarolando, baixinho, melodias carnavalescas.

– Papai tinha um serrote grande e carregava como se fosse um violão. Fazia serenatas com o serrote e varava a madrugada. Minha mãe ficava brava. Mas, ele sempre voltava da farra tocando serrote e cantarolando uma valsa que ele compôs para ela, “Sempre Viúva, Desamparada”. A briga acabava ali.

Quem recorda é María Cecília da Silva, filha de Lídio. Ela aponta os amigos de serenata: Louso, Antônio Bole-Fole, Amor, João Barbeiro.

TRÊS DA TARDE: A INSPIRAÇÃO VEIO DO CARRILHÃO DO DIARIO DE PERNAMBUCO

Seu frevo mais conhecido é o Três da Tarde (frevo-de-rua), clássico do carnaval pernambucano e verdadeiro hino do carnaval olindense.

Lídio tinha uma dívida para receber. E marcou um encontro em frente ao Diario de Pernambuco, no centro do Recife, para receber o dinheiro. Uma hora da tarde.

Lídio chegou pontualmente. E ficou esperando. Com fome, não tinha almoçado. Duas horas da tarde, ouve o carrilhão do Diário de Pernambuco – jornal mais antigo em circulação na América Latina – tocar. Sentia uma tontura por falta de alimentação e a ansiedade para receber o dinheiro.

Deu três da tarde, o carrilhão do Diario de Pernambuco tocou novamente. Logo em seguida, recebeu o dinheiro e a inspiração para fazer sua música de maior sucesso. Aproveitou as batidas do carrilhão e adaptou para o ritmo do frevo. E Três da Tarde é uma das músicas mais executadas no famoso carnaval de Olinda até o dia de hoje.

A melodia foi escrita pelo maestro Lafayette Lopes no mesmo dia que idealizou a melodia no seu pensamento. O arranjo musical foi feito pelo maestro da Banda do 14 Regimento de Infantaria – RI. A primeira gravação de Três da Tarde foi feita pela Orquestra do Maestro Severino Araújo.

REGRESSO DE “DONZELINHOS” (1957)

Quando Lídio veio de Itaquitinga, Zona da Mata Norte de Pernambuco, para morar na Rua Porto Seguro, Ribeira, Olinda, foi procrurado por um grupo da agremiação Donzelinhos dos Milagres.

Um deles era o filho de Pedro Braga, pai do maesdtro Júlio Braga, gerente da Fábrica de Doces Amorim Costa, que funcionava onde existe hoje o Mercado Eufrásio Barbosa, no Varadouro:

– A gente vai regressar e não vamos mais desfilar. Vai ser o nosso último ano. Precisamos de uma música.

Lídio fez a primeira estrofe de imediato. E pediu aos visitantes para que voltassem no outro dia para receber a música completa. Até hoje, essa composição vem fazendo sucesso no carnaval de Olinda:

Adeus carnaval de Olinda,
Cidade tradicional.
“Donzelinhos”, com saudade imensa
Pede licença para regressar. (Bis)

Adeus, adeus,
Adeus para não mais voltar…
Adeus, carnaval de Olinda,
Da minha terra natal!

Esse grupo de Donzelinhos veio a ser o embrião de duas grandes agremiações carnavalescas de Olinda: Elefante e Pitombeira.

Lídio permaneceu fiel ao seu Vassourinhas e desfilava nas duas rivais: Elefante e Pitombeira.

MÚSICA, MULHERES E FLORES

Segundo o maior historiador do carnaval de Olinda, José Ataíde, “esta composição do repertório do Clube Vassourinhas de Olinda é considerada uma obra-prima da música do carnaval de Olinda, que continua fazendo sucesso em todos carnavais”.

A música é harmonia
A mulher é poesia
As flores que abrem
Sua pétalas enfim
Entre o Vassourinhas
(Estribilho)
Sou a rainha das árvores
Que disvanço em diversas cores (Bis)
Assim rimam meus versos
Música, mulheres e flores.

ESCAMA DE PEIXE: VASSOURINHAS DE OLINDA X LENHADORES. A RIVALIDADE TERMINOU NOS BANHOS QUE O CONDE LEVOU

Lídio Macacão foi pródigo em fazer múicas alusivas à rivalidade entre as agremiações carnavalescas de Olinda. Com uma ironia afiada, “Escama de Peixe”, de sua autoria, provocou indignação do Clube dos Lenhadores, eterno rival do Vassourinhas de Olinda.

Explorando o fato de que a maioria dos integrantes de Lenhadores se dedicava à atividade pesqueira, o compositor satirizou os “ricos” carnavalescos, contando a máxima de que eles amealhavam escamas de peixe. De cara, revelou a sua paixão pelo Vassourinhas.

Sobre  “Os Banhos do Conde”, o jornalista de fato e grande historiador José Ataíde, deixa registrado em seu essencial livro “Olinda, Carnaval e o Povo” o seguinte relato:

“Quando se fala em “Banho de Conde” no carnaval, todos os maiorais carnavalescos lembram a mais tradicional música da folia, composta pelos carnavalescos Clídio Nigro e Wilson Wanderley. Entretanto, muita gente desconhece que a figura do “Conde” na folia olindense refere-se ao compositor Lídio Francisco da Silva (Lídio Macacão). O Conde do Guadalupe, como era conhecido um dos maiorais do carnaval passado. Lídio era mestre invernizador e nas horas de trabalho ficava cantarolando, baixinho, melodias do gênero carnavalesco.

Também quando se fala em banho de conde no carnaval antigo vem a lembrança dos banhos que deram no conde, que não gostava de banho frio. Uma vez, uma turma do clube Lenhadores o enganou, levou-o até Cabo Gato, um local tradicional para banho no rio dos Peixinhos – rio Beberibe. Lá fizeram-no tomar banho na marra. Embora Lídio não gostasse de água fria, levava tudo na maior brincadeira. Esse banho era para descontar as mágoas devido uma composição que ele tinha feito bolindo com o clube dos peixeiros, intitulada Escama de Peixe. Esta composição do clube Vassourinhas, saiu depois que Manoel Ramos fez a música Leão da Aldeia para o clube Lenhadores em 1924.”

Leão da Aldeia
Manoel Ramos

Eu sou leão
Em toda aldeia
No mundo inteiro
Não há igual
Tenho dinheiro para gastar
Eu sou rico, eu sou rico, eu sou rico
Não posso me conformar
Eu sou leão
Em toda aldeia
No mundo inteiro
Não há outro igual

Revela José Ataíde: “Por causa dessa composição, que enaltecia a grandeza do leão Lenhadores, fez surgir uma resposta musical denominada Escama de Peixe de Lídio Macacão do clube Vassourinhas de Olinda”.

Escama de Peixe
Lídio Macacão

Tu dizes
Que és rico
Eu me conformo
Com tua riqueza
Sei que tu tens
Um cofre guardado (fiiiu…)
Cheio de escamas de peixe

És rico, eu acredito
E fazes muita caridade
Mas pra brincar carnaval
É preciso esmolar em toda cidade

A tréplica logo veio. E de forma preconceituosa e agressiva. A composição Urso Preto, do repertório do Clube Lenhadores, para o carnaval de 1926 serve de resposta a Escama de Peixe, mas foi um ataque direto a Lídio:

Urso Preto

Seu Urso Preto
Não sejas boçal
Vá pra escola
Aprender o be-a-bá
Se desvaneça meu “lindo” amor
Que você não tem elemento
Pra abafar o nosso Lenhador. (Bis)

Prossegue José Ataíde revelando os banhos que o Conde do Guadalupe levou:

“Depois, os dirigentes da agremiação Destemidos, Joaquim Araújo (Joaquim da Carne), e Pedro Rodrigues que viviam do ramo da carne – fressureiros e magarefes e formavam a direção dessa agremiação – convidaram Lídio para uma brincadeira no Matadouro de Olinda – nessa época era na localidade que hoje se chama Vila Popular – nessa brincadeira deram outro banho no conde.

No sábado de carnaval de 1923, Miguel Canuto, que era um dirigente dos Destemidos, convidou o conde para passar o domingo de carnaval na 'conquista' – casa de Miguel Canuto – e pediu que Lídio trouxesse as roupas que usaria no domingo. Lídio ficou impressionado com o convite e foi trabalhar nesse sábado na casa do comerciante Albino Neves, na rua do Sol no. 108. Lá o conde fez a música conhecida naquela época como Banho no Conde (melodia de 1923 que fez muito sucesso em 1924). A letra dessa composição dessa composição fala na palavra vlan referindo-se a um antigo lança-perfume.”

Banho no Conde
Lídio Macacão

Sou teu amigo
Não te ligo
Vem cá, me escutar
Estou te vendo
É um banho
Que tu queres me dar.

Neste carnaval
Eu não posso me molhar
Só com lança-perfume
Que não me faz mal
As morenas vêm dizendo
É vlan, é vlan
Para o conde não se incomodar.

Informa José Ataíde que “A música Banho de Conde do Clídio Nigro e Wilson Wanderley não tem qualquer semelhança com essa antiga composição composta na década de 1920.” Banho de Conde – até hoje um grande sucesso do carnaval de Pernambuco – foi composta inspirada na turma do bloco Guiamum na Vara para denunciar o fracasso do bloco Batutas de Olinda. No entanto, Lídio, por conta da sua aversão a banho frio, de maré ou rio, aparece de forma subliminar.

Banho de Conde
Clídio Nigro e Wilson Wanderley

Vou formar a turma
Pra tomar banho na beira do mar
Vou ficar molhado
Eu vou dá água pelo carnaval

Vem, padroeiro “fiché”
Que, acendi no “painé”
Não mergulhei, mas me afoguei
Banho de maré tomei (Bis)

MÚSICA PARA CAMPANHA POLÍTICA

Lídio também compôs músicas para candidatos nas eleições. Um exemplo é o Hino dos Três Candidatos divulgado em 6 de setembro de 1958:

I
Avante Pernambuco inteiro
És pioneiro nesta tradição  Bis
Votamos bem consciente
Queremos somente a sua restauração

II
A vida está muito cara
A Pobreza sem remissão  Bis
Votamos nos três candidatos
Esperamos a sua cooperação

III
Cid Sampaio para seu governador
Pelópidas Silveira seu Vice-Governador
Votamos em Barros Carvalho
Para ser o nosso Senador.

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