Análise

Bandas centenárias e convergência digital

O presente artigo tem por finalidade analisar, sob a perspectiva da economia política da comunicação, o projeto Ponto de Cultura Bandas Centenárias Convergência Digital. O percurso metodológico para a elaboração deste trabalho partiu da observação do referido projeto e a análise da sua relação com conceitos de indústria cultural, espaço-tempo e sociedade em rede.

Por: Ricardo Vernieri

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Ano XII
13.08.2012

Com todo o poder da indústria cultural, ainda existe resistência às forças hegemônicas dessa indústria que nos permite ter acesso a uma cultura centenária e ainda viva em inúmeras cidades do interior brasileiro. Um caso a se destacar é o projeto Ponto de Cultura Bandas de Centenárias Convergência Digital1, desenvolvido em Pernambuco, por meio de convênio firmado entre ONGs e instituições governamentais (Ministério da Cultura – Programa Mais Cultura; governo do estado de Pernambuco – Fundarpe; e governo federal). O projeto se propõe a fazer o levantamento e catalogação das bandas de músicas do estado de Pernambuco em um ambiente virtual (portal na internet), onde são armazenadas informações sobre as bandas de música, sua história, sua estrutura, repertório, fotos e vídeos, possibilitando o acesso tanto pelo público em geral como também pelos membros das bandas que fazem parte do catálogo, permitindo assim várias conexões/interações entre as bandas, fortalecendo as parceiras e enriquecendo toda a rede de bandas de Pernambuco. Outro aspecto relevante do projeto é a dimensão tempo-espaço, pois por meio do catálogo online torna-se possível, a qualquer momento e em qualquer lugar, conhecer um tipo de cultura musical centenária que aos poucos vem sendo abafada pelas indústrias culturais.

O Catálogo de Bandas de Música de Pernambuco é um produto desenvolvido pelo Ponto de Cultura Bandas Convergência Digital que surgiu como uma ferramenta para difundir as bandas de música do estado. Fruto de uma iniciativa de diversas entidades não governamentais (Caldeira Cultura Brasileira e a Plural Projetos e Produções Artísticas) e governamentais (governo do estado de Pernambuco e governo federal). O trabalho de elaboração do catálogo consistiu no levantamento de informações sobre as bandas de música e sua realidade no contexto sociocultural, por meio de visitas da equipe do projeto às sedes das bandas para captação do material audiovisual necessário a criação do catálogo virtual (fotos, vídeos, depoimentos, textos, etc.). O catálogo permite o estabelecimento de rede intranet entre as bandas, permitindo troca de informações sobre a história, ações, instrumentistas e regentes através de webcast e podcast. Atualmente estão catalogadas no portal 185 bandas de música, sendo quatro bandas sesquicentenárias, 22 bandas centenárias, nove nonagenárias, sete octogenárias, duas setuagenárias, seis quinquagenárias, três quadragenárias, 119 bandas trigenárias, nove bandas militares, uma fanfarra e uma banda marcial. Desse total, 37 bandas musicais catalogadas possuem link na página do catálogo online com seus dados.

Resistindo à indústria cultural

O projeto em questão configura-se em uma oportunidade de visibilidade e de certa forma uma alternativa a sobrevivência dos grupos musicais centenários que lutam para manter viva a sua tradição cultural por meio do trabalho, educando jovens e formando músicos de muitas cidades do interior que não possuem espaço para mostrar seus talentos musicais por viverem à mercê da chamada indústria cultural, uniformizadora e massificadora de produtos culturais, contribuindo com o projeto de dominação patrocinado por um mercado de massa oligopolista, objetivando produzir mercadoria-audiência.


Construindo redes

O portal virtual onde se situam os dados das bandas de música catalogadas pelo projeto permite a integração e interação entre as bandas, proporcionando trocas de informações, compartilhamento de experiências e dados, ações que servem para fortalecer a rede. O catálogo online torna-se, então, o grande nó de toda rede, um elemento central e de aglutinação de dessas organizações. Portanto, as bandas situadas em áreas geográficas próximas agora possuem um instrumento para desenvolver projetos em conjunto, trabalho que sem o papel facilitador do catálogo online de bandas de música centenárias de Pernambuco seria pouco plausível.


Aproximando a relação espaço e tempo

Até então as bandas de música de Pernambuco cumpriam sua missão por meio de apresentações ao vivo em inaugurações públicas, festivais, feiras, congressos e demais eventos populares. Para o consumo (audiência) do seu produto era necessário a presença física de sua plateia. Neste novo contexto, existe a possibilidade de se registrar ensaios, gravar audições e postá-las no catálogo online, permitindo que um público bem mais numeroso tenha acesso na hora que desejar e onde estiver, bastando ter apenas uma boa conexão de internet. Ou seja, neste caso a dimensão temporal e espacial praticamente deixa de existir, favorecendo inclusive a criação de um relacionamento entre público e bandas.

Tem-se uma visão otimista e acredita-se que iniciativas como essas, que são fomentadas pelo poder do Estado por meio de políticas públicas, podem contribuir para o fortalecimento e uma maior socialização das culturas não privilegiadas e não patrocinadas pelas indústrias culturais.

fonte: Revista do Instituto Humanitas Unisinos

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4560&secao=398

 
 Ricardo Vernieri de Alencar
Bacharel em Administração UNICAP – PE
Mestre em Administração UFPB – PB
Doutorando em Ciências da Comunicação UNISINOS – RS
Desenvolve seus estudos de doutorado na linha de pesquisa sobre Midiatização e Processos Sociais.
 
Prof. Assistente da Universidade Estadual do Piauí – UESPI
 
 
 
 
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