Crônicas e Lembranças

Maestro Normando Carneiro (compositor, professor)
textos, pensamentos, anotações, percepção de dados ligados a Música (direta ou indiretamente)
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Representação Bidimensional da Distorção causada pela massa de um objeto, Albert Einstein:
Isso é a Gravidade (Foto: Wikimedia Commons)

Goethe
“considerava que na natureza, e na arte,
vigiam as mesmas leis, conceituadas por ele
como leis 
da polaridade e da intensificação”.

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Crônicas e Lembranças (2017)   –   Texto  IV   –
A híbrida música nordestina: tonal e modo-quartal “do nordeste brasileiro” 

Maestro Normando Carneiro
“elementos para compreensão de seu gesto compositor”

ct-musica-aneis-arvores-900A música denominada “Modo-Quartal do Nordeste Brasileiro” é uma experiência nacionalista que contempla como matéria prima, o cancioneiro nordestino tratado harmônica e melodicamente segundo o modalismo regional em parcela com a técnica quartal. Em função disso, verificamos que o autor desfaz intencionalmente a condição tradicional dos encadeamentos reservando para alguns acordes, modal e (ou) quartal funções de dependência ou atração tradicionalmente acadêmica.

Harmonia e melodia se revezam, ora sob a influência modal ou quartal e, de acordo com a ótica da intenção programática do compositor, a usar também um tonalismo que procura por caminhos não tradicionais, reservando para acordes escolhidos um função individual, isto é interindependente dos acordes de um suposto ciclo tonal.

A intenção é estabelecer uma filosofia genealógica musical. Em filosofia, a genealogia é uma arte histórica em que comumente entendido o surgimento de várias crenças filosóficas e sociais exibidas alternadamente com a finalidade de provocar uma idéia oposta a da metafísica. Enquanto esta afirma e bate o martelo, “a genealogia é cinza”, isto é, nunca encerra uma questão como verdadeira e acabada. Por exemplo, os galhos de uma árvore sempre gerarão outros galhos e outras árvores. Aqui, a Filosofia genealógica questiona a origem das idéias pré-concebidas da música tradicional sem sair dos dois sistemas, modal e tonal e da técnica quartal. Nos mostra como as idéias simples musicais surgem e se transformam num produto de relações de poder.

A análise de uma obra, segundo essa proposta deve ser feita segundo a observação junto á partitura apontando a presença desses fenômenos. Por exemplo: Quando um acorde de 7ª da dominante não resolve na tônica, isso não significa que a intenção é modular, de acordo com as regras de modulação, contudo de gerar uma imagem nova, distante de uma mudança tonal. Quando o compositor está sob a influência modal, o surgimento de novas imagens se torna mais fluídico porque o modalismo é assim; se está sob a influência das técnicas quartais, as imagens adquirem um caráter mais interrogativas, pois a escrita quartal não repousa, ela provoca imagens de expectativa.

O libretista e romancista Paul Anthony Griffiths nos alerta:

A capacidade de a música falar em muitas vozes diferentes — as vozes manifestas da polifonia ou as vozes mais submersas de diferentes participantes (compositor, executante, caráter ou personagem, a que se podem adicionar as vozes das tradições instrumentais, formais e nacionais) — é essencial ao que a tornou um assunto tão fascinante e desconcertante de discussão filosófica.

 Mas alguém pode contestar se essa música é essencialmente nordestina, se denuncia realmente o estilo nordestino. Afirmativo: é e será, enquanto, contudo, estiver sob os auspícios do cancioneiro nordestino. Porém nada impede de usarmos a mesma técnica para expressar a nacionalidade de qualquer nação, desde que o compositor utilize como matéria prima o cancioneiro da terra em questão.

Se estivermos a optar em usar uma nova técnica, contudo não exatamente outro sistema musical, é necessário conhecermos as técnicas tradicionais de harmonia, contraponto e orquestração; Nesse sentido, recomendo as obras acadêmicas de Walter Piston.

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Crônicas e Lembranças (2003)  –  Texto III  –
Coretos: Imagens Eternas
(dissertação de mestrado)

capa Coretos - ebookNormando Carneiro (maestro, compositor, arranjador, pesquisador ) Obs. Este texto foi extraído do periódico “Poiesis”: Estudos de Ciência da Arte v. 4 (2000) – -Niterói, 2000 – v.: II; 22×24 cm Publicação do Programa de Pós Graduação em Ciência da Arte Anual ISSN 1517-5677 1. Arte, 2. Ciência da Arte. 3.Teorias da Arte. 4. Linguagens da Arte CDD 700.105 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Copyright 2002 by Programa de Pós Graduação em Ciência da Arte Direitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da UFF.
»Coretos: Imagens Eternas: Estudos de Ciência da Arte. Publicação do Programa de Pós Gradação, ano 4, 2002 – pág 163/180 – Universidade Federal Fluminense – Niterói, RJ; Maestro Normando Carneiro (compositor, pesquisador e escritor). Texto com função especifica de lançar elementos para análise sobre um período exato na existência de duas importantes Bandas de Música de Pernambuco (Curica e Saboeira). O ponto de interesse desse texto é apresentar a “busca” de uma ética de vida, em prol de um mundo melhor, estimulada e desenvolvida pelas imagens sonoras emergentes da música destas duas Corporações Musicais da cidade de Goiana (Zona da Mata Norte de Pernambuco).

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Crônicas e Lembranças (27/01/2017)
Texto II: Imortalidade Artística

Arte é a atividade realizada através de um ser energético inteligente que ocupa, e manipula, um corpo físico hospedeiro.

Disso não há dúvidas, mas há carência de fundamentação da existência de uma Entidade mais conhecida como “espírito” propriamente dito, a ciência ainda não conseguiu provar.

Por outro lado, sem essa dita “Entidade” o corpo físico seria um monte de carne inútil encostada num canto de parede. E a medicina cuida apenas do corpo físico enquanto este permanece sob a ação energética. E aí? Como estabelecer um método científico?

Conhecido como artista, essa entidade se manifesta através de uma ordem estética a partir de percepções estilísticas individuais, do tempo, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em si, ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente.

Ao que chamamos de “inspiração” não existe porque, nesse caso, não há fundamentação científica. A arte é oriunda, ou gerada através do trabalho intelectual. Na música, por exemplo, compasso por compasso necessitando enfim, satisfazer uma poética (conteúdo e forma), desta feita a preencher uma estrutura formal.

Na música, apesar de exigir tantas complexidades que parecem fórmulas físicas, o artista não morre; a essência espiritual não morre; continua ativa através da sua obra que permanece viva através dos tempos. Por meio da alma artística a obra se eterniza, pois o corpo hospedeiro apenas foi utilizado para converter a arte em algo perceptível aos indivíduos.

Muito embora o corpo humano pareça material (física quântica), a música, a pintura, a literatura e demais artes são conversões da essência das ideias da energia inteligente que move o corpo, batizada como espírito. O corpo não é nada sem isso.

A classe especial de artistas deixa suas essências em níveis extraordinários, mesmo quando o corpo hospedeiro não seja sadio. Além disso, a criação geralmente está ligada a indivíduos fora dos padrões conhecidos na sociedade em que vivemos. Os livros de história guardados no baú poeirento mostram-nos o quão tênue é a linha que separa a genialidade da loucura. Se muitas ideias geniais foram recriminadas no passado por serem fruto de uma mente que parecia doentia, hoje ninguém duvida delas.

Na pintura, na escrita ou na música, todos se unem por características comuns. Esses artistas são taxados, equivocadamente de loucos, possuidores de distúrbios mentais que possuem uma misteriosa melancolia que fascina a comunidade cientifica. Gênios, loucos e criativos, muitos, porém, parecem tendenciosos a exterminar seus corpos, mas as obras permanecem, são imortais. Por tudo isso essas Entidades estão fora do seu tempo? Localizam-se em nível da marginalidade social? Superam o considerado “normal” pela psicologia e pela filosofia porque estão longe dos seus mundos? É possível.

Mas não se dão por vencidos e por isso criam compulsivamente, o que explica o considerável volume dos seus acervos.

Mas, graças a essas fantásticas mentes, no mundo em que vivemos a arte não falece, mesmo que se queimem todos os livros, todas as partituras, todos os quadros, pois a alma artística é etérea e permanece viva; não pode ser exterminada; viverá para sempre.

Ao mesmo tempo em que o artista sofre, ele tem consciência, mais do que qualquer pessoa, que a vida física é apenas uma passagem e que a morte é uma benção, uma oportunidade certeira no sentido de voltar para casa.

Normando Carneiro (Natal/RN)

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Crônicas e Lembranças (26/11/2016)
Texto I: Uma experiência com Lourival Oliveira

Recebemos do Maestro Normando Carneiro (RN) texto/homenagem falando sobre o grande compositor de frevos Lourival de Oliveira. E por sugestão do proprio Normando resolvemos abrir esta página como um meio para que outros músicos possam nos enviar textos sobre o universo das Filarmônicas e suas experiências construtivas.
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lourival-de-oliveira-clarinete-1HOMENAGEM –  Ao Mestre com Carinho

o texto abaixo foi elaborado como uma forma de agradecimento do ex-aluno para com seu professor

UMA INUSITADA EXPERIÊNCIA
COM LOURIVAL DE OLIVEIRA

(maestro/compositor Normando Carneiro, ex-aluno)

Felizmente tenho a honra, e a oportunidade, de falar sobre Lourival de Oliveira, justamente porque foi, antes de tudo, meu primeiro professor e um amigo para todas as horas, sempre aconselhando, sugerindo, e fornecendo dicas. Em momento nenhum quis ele usufruir nenhum retorno financeiro da minha parte relativamente ao tempo que se dedicou em prol do meu aprendizado. É claro que não tínhamos o maior tempo do mundo, pois Lourival tinha a missão imprescindível, de deixar um legado como ele mesmo dizia: “Sou um compositor de frevos”. Aliás, sob minha ótica, um excelente compositor, pois tudo que fazia era minuciosamente avaliado, feito, refeito, até quando dizia: “Agora está bom”.

Foi cômico o momento da nossa primeira aula. Primeiro perguntou quais os meus propósitos e depois me avaliou, porém nada disse. Nessa época, por volta de 1965, contando com 16 anos de idade, estudava na Escola Técnica Federal de Pernambuco e lá havia um instrumental quase completo para a formação de uma Big Band. Não havia nenhum outro aluno interessado em utilizar esse acervo, quando prontamente me coloquei à disposição no sentido de estruturar um grupo eclético, onde contemplava o frevo. Convidei alguns colegas, estruturamos um projeto, mas encontrava-me tecnicamente frágil no sentido de dirigir o grupo. Relatei tudo isso ao Lourival; atentamente me ouviu e finalmente perguntou: “Desse grupo, você é aquele que sabe mais sobre música?”. Temeroso, eu respondi: “sim”… Então ele deu a nota final dizendo: “Então precisamos correr”… Ingenuamente eu perguntei: “por que”? Ele olhou atenta e seriamente para mim e sugeriu que eu frequentasse uma bandinha por ele regida naquele mesmo bairro, só para principiantes. Nessa época era um aprendiz de trompete, desta feita sendo essa minha primeira prática em conjunto. Deveria permanecer praticando pelo tempo que ele achasse necessário e só depois dessa experiência, caso fosse bem sucedida, poderia desfrutar aulas de harmonia, instrumentação e orquestração, ali mesmo em sua casa. O tempo passou, fui aprovado no teste e a partir daí recebi muitas orientações do dito mestre até o ano de 1967, quando fui obrigado a acompanhar minha família com destino ao Rio de Janeiro.

Depois de alguns anos, por volta de 1988, ou seja, 23 anos depois, retorno a Recife, na condição de maestro da Banda Sinfônica Jovem da Fundação Educacional de Barra Mansa, RJ em excursão pelo litoral brasileiro, quando encontro num evento competitivo de bandas, Lourival de Oliveira. Prontamente me reconheceu, e a alegria de reencontrar o amigo foi seguida de uma emoção incomum, justamente porque foi através dele que dei os primeiros passos em prol da causa musical.

Mas o tempo andou ainda mais rápido e no ano de 1993, quando já residia em Natal, RN, me lembrei em procurar Lourival de Oliveira. Ainda no mesmo telefone, na mesma cidade do Recife, consigo falar com ele novamente, contudo de forma melancólica. Ele atende ao telefone com a voz trêmula e embargada perguntando quem estava falando. Eu me identifiquei e ele disse: “Não conheço, sou apenas um compositor de frevos”.

Sete anos depois morre Lourival de Oliveira.

Lembrei de um episódio que aconteceu no período em que meus contatos com ele eram frequentes:

Estava em casa, quando necessitei sanar uma dúvida sobre harmonia e liguei para o mestre, quando o mesmo, sem mesmo esperar que me pronunciasse, falou:

os-cabras-de-lampiao-no-frevo“Normando, estou fazendo um  trabalho inédito”. Eu perguntei: “Mas do que se trata Lourival?” Ele respondeu: “estou escrevendo frevos sobre cada cabra de Lampião. É uma série de frevos que têm como título os nomes dos cangaceiros mais famosos e de confiança do Rei do Cangaço. Venha aqui que eu lhe mostro”. Nessa época, morava no bairro da Estância. Era cedo e peguei um ônibus em direção a Santo Amaro. Se não me falha a memória precisava de tomar dois ônibus: um da Estância para centro da cidade e outro (o elétrico), para Santo Amaro.  Me lembro bem que passava pela TV rádio clube. Chegando lá, ele estava debruçado sobre sua mesa de trabalho concluindo algo. Olhou para mim e disse: “peraí”.  Concluiu algo e me ofereceu dois exemplares. Um deles era o “Ponto Fino” e o outro não me lembro. Acrescentou: “É uma mistura de modalismo nordestino com tonalismo tradicional”……………… 
Como dizia o personagem de Ariano Suassuna (Chicó), “Só sei que foi assim”.
…………………………        ………… texto: (Maestro, compositor Normando Carneiro)

– Normando Carneiro foi aluno de Técnicas/composição do frevo de rua. Curso com o Maestro Lourival de Oliveira – Recife, PE – 1965/1967, nesse período ele também tocou na Bandinha do Lourival.
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Crônicas e Lembranças
Textos Maestro Normando Carneiro – Natal/RN
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Maestro Normando (RN)A palavra crônica deriva do Latim chronica, significava o relato de acontecimentos em sua ordem temporal, cronológica. Era um registro cronológico de eventos. No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. A crônica literária, surgida a partir do folhetim, na França, e tomou características próprias no Brasil. Aqui a Crônica ganha ares de diário de bordo do Maestro Normando Carneiro (compositor e professor) onde ele faz observações sobre vários assuntos relacionados a Música ou ligado a seu mais amplo universo de ação e utilizada.
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Visite também:

https://catalogobandasdemusicape.wordpress.com/maestro-normando-rn/
https://maestronormandocarneiro.wordpress.com/
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Ouça composições do Maestro Normando Carneiro
https://www.youtube.com/watch?v=bjwWAZwwydM&list=PLRaxlFhcPD1gp1jyv7-hqmDjgFKRxRj1B
https://www.youtube.com/watch?v=LwWSo1RAOE0&list=PLRaxlFhcPD1jlhAxpvSfkfbtRzpVN2Y0M

 

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