Nelson Ferreira

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(09/12/1902 – 21/12/1976)

  • Evocações… Nelson Ferreira (documentário: a vida e a obra do maestro e compositor pernambucano Nelson Ferreira, um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira. Produção: Flávio Rodrigues )

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MP3 (composições de Nelson Ferreira)

“Gostosão e Gostosinho”
há meandros enigmáticos nestas composições, como fontes d’água em oásis, do Nelson Ferreira, elas indicam muito de nós, ou o que fomos…

  • Gostosão –  Nelson Ferreira -Álbum 100 Anos de Frevo (É de Perder o Sapato-2007)
  • Gostosinho – Nelson Ferreira – Banda de Frevo da PMPE

Nelson é um dos nordestinos que possui o maior número de músicas gravadas na história da discografia brasileira, embora grande parte de suas criações seja desconhecida do resto do Brasil. Sua produção, ao lado da de outros pernambucanos como Raul e Edgar Morais, Zumba, Levino Ferreira, Irmãos Valença, Luiz Gonzaga e Capiba, entre alguns outros, é de uma importância enorme no estudo das manifestações músico-sócio-culturais de nossa região…(veja aqui)

Iniciou a carreira artística aos 13 anos quando começou a tocar em cafés noturnos, apresentando-se das 20 horas à meia-noite. Tocou na Pensão Chantecler, Pensão Mirim, Pensão Boemi e Pensão de Júlia Peixe-boi. Apresentava-se interpretando valsinhas, polcas e maxixes, mas seu pai achou o ambiente impróprio e proibiu-o de continuar se apresentando em tais lugares. Foi trabalhar no Café Chile, na Praça da Independência, e depois no Café Chileno, na Avenida Rio Branco, no Centro de Recife.

Em 1917, aos 15 anos, teve sua primeira composição editada, a valsa “Vitória”, feita por encomenda para a Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. No mesmo ano, foi convidado para atuar na sala de espera do Cinema Pathé, em Recife, fazendo acompanhamento ao piano para filmes mudos, com um salário de 150 mil-réis por mês.

Em 1919, foi convidado a integrar a Orquestra do Cine-Teatro Moderno, ganhando 7 mil-réis por dia. A orquestra era dirigida pelo maestro Suzinha e composta de piano, dois violinos, sete clarinetas, violoncelo, contrabaixo, flauta, trompa, pistom e bateria. Pouco tempo depois, o maestro Suzinha deixou a orquestra e Nelson passou a dirigi-la. Prosseguiu os estudos musicais, tendo aulas com o pianista Manuel Augusto dos Santos.

Em 1920, fez sua primeira composição de sucesso, a valsa “Milusinha”. Em 1922, viajou para a Europa, no navio Caxias, que fazia a rota Rio — Hamburgo, e cujo pianista adoecera e precisara ser substituído.

Retornou ao Brasil em 1923, voltando a atuar no Moderno até o fim da década. Em 1926, casou-se com Aurora, que seria sua grande incentivadora.

Em 1929, o Cine-Teatro Moderno foi arrendado por Luiz Severiano Ribeiro, obrigando Nelson a se transferir para o Teatro Helvética, levando consigo toda a orquestra. O Teatro Helvética fechou e Luiz Severiano convidou a orquestra a ir para o Rio de Janeiro, oferta aceita apenas por Nelson e pelo baterista João Gama. No Rio, foi trabalhar no Cine-Teatro Central, na Avenida Rio Branco, em cima do Café Nice, dirigindo a orquestra de variedades, em substituição ao maestro Gianetti, que saíra para concluir uma ópera. Ficou apenas cinco meses no Rio de Janeiro, sendo levado por Luiz Severiano para inaugurar o Cine Parque em Recife.

A chegada do cinema sonoro a Recife em 1930 decretou o fim das orquestras que acompanhavam os filmes mudos. A de Nelson dissolveu-se e ele teve que ganhar a vida dando aulas de piano.

Em 1931, foi contratado por Oscar Moreira Pinto para trabalhar na Rádio Clube de Pernambuco. No mesmo ano, a Orquestra Victor Brasileira gravou de sua autoria as marchas “Vamo chorá, nega?” e “Carrapato cum tosse”.

Em 1933, foi vencedor de concurso carnavalesco, promovido pelo Jornal do Comércio, com a marcha “A virada”.

Em 1934, ganhou o cargo de diretor artístico da Rádio Clube, onde fez de tudo — regeu orquestra, tocou piano, foi produtor e locutor do programa “A hora azul das senhorinhas”. Fez ainda o papel de galã na peça “Tão fácil, a felicidade”, que começou o radioteatro em Pernambuco. Todos os cantores que se apresentavam na Rádio Clube eram acompanhados por ele, por ser o único pianista da emissora.

Em 1936, tornou a vencer o concurso do Jornal do Comércio, com “No passo”, arrebatando também o segundo lugar com “Palhaço”. Na Rádio Clube de Recife, viveu a era de ouro do rádio pernambucano, tendo atuado ao lado de Fernando Lobo e Antônio Maria. Acompanhou a evolução dos ritmos e modismos musicais, compondo centenas de obras variadas, entre valsas, canções, foxtrotes, shimmys, noturnos e frevos. Compôs frevos de rua, frevos de bloco e frevos-canção.

Em 1938, Aracy de Almeida lançava com sucesso para o carnaval o frevo-canção “Veneza americana”, de Nelson e Zilu Matos. No mesmo ano, Carlos Galhardo gravou o frevo-canção “Corre Faustina”.

Em 1939, duas valsas de autoria de Nelson Ferreira foram gravadas por Francisco Alves: “Diga-se” e “Minha adoração”. Em 1940, Dircinha Batista gravou os frevos-canção “Não é vantagem”, de Nelson e Osvaldo Santiago, e “Juro”, e Almirante gravou “Minha fantasia” e “Vamos começar de novo”, esta também uma parceria com Osvaldo Santiago. Em 1944, teve o frevo “Sabe lá o que é isso?” gravado por Zaccarias e sua Orquestra.

Em 1947, Nélson Gonçalves gravou o frevo-canção “Bem-te-vi”. Em 1957, tornou-se conhecido nacionalmente com o frevo “Evocação”, gravado pelo Bloco Carnavalesco Batutas de São José, e que tornou-se um grande sucesso nos carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo. No ano seguinte, compôs em parceria com Osvaldo Santiago o “Evocação nº 2”. Nos anos seguintes e até 1964 comporia outros frevos da série “Evocação”, alcançando o número de sete.

Em 1959, gravou o disco “O que eu fiz… e você gostou”, onde o cantor Claudionor Germano interpreta seus frevos de diferentes carnavais.

Em 1967, aposentou-se do rádio. Criou no mesmo ano a Orquestra de Frevos Nelson Ferreira.

Em 1968, gravou o LP “O que faltou… e você pediu”, novamente com o cantor Claudionor Germano interpretando frevos de sua autoria.

Em 1972, o Bloco Carnavalesco Rebeldes Imperial, de Recife, gravou a “Evocação nº 7”. Nelson foi diretor da gravadora Rozenblit, antiga Mocambo.

Em 1973, teve lançados três LPs com obras suas — “Nelson Ferreira — Meio século de frevo de bloco”, com frevos de blocos de vários carnavais; “Nelson Ferreira — Meio século de frevo de rua”; e “Nelson Ferreira — Meio século de frevo-canção”, todos pela Rozenblit. Nelson compôs ainda a opereta “Sargento sedutor”, com libreto de Samuel Campelo, e a peça infantil “Quando a vida sorri”, com texto de Maria Elisa Viegas.

Entre os seus mais famosos frevos de rua está a trilogia “Gostosinho”, “Gostosão” e “Gostosura”, e mais “Come e dorme”, “Isquenta muié”, “Frevo no bairro de São José” e “Casá, casá”, que virou o hino do Sport Club Recife.

Entre seus frevos-canções destacam-se “Borboleta não é ave”, “Não puxa Maroca” e “Dedé”. Compôs ainda o “Hino oficial da cidade do Recife”, com letra de Manuel Arão.

Recebeu as Medalhas do Mérito do Recife e de Pernambuco e teve concedido pela Câmara Municipal o título de Cidadão do Recife, entre outras homenagens.

Em 1999 a Polydisc lançou o CD “Nelson Ferreira”, dentro da série “História do carnaval”, com diversas obras de sua autoria, entre as quais, “Evocação nº1”, “Come e dorme”, “Bloco da vitória” e “Cabelos brancos”.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB

Nelson Heráclico Alves Ferreira
 9/12/1902 Bonito, PE
 21/12/1976 Recife, PE

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veja também: 

PEQUENA HISTÓRIA

por Renato Phaelante

Nelson Heráclito Alves Ferreira, o “Moreno Bom”, como era carinhosamente apelidado, nasceu no município pernambucano de Bonito, a 9 de dezembro de 1902 e tornou-se, ao lado de Lourenço da Fonseca Barbosa, o “Capiba”, o mais popular compositor de que o Nordeste tem notícia.

nel02Seu primeiro contato com a produção musical se deu aos 14 anos, compondo, a pedido da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana, a valsa “Victória”. Daí em diante, Nelson só parou quando lhe pararam o coração e o pensamento. Fez valsas, foxes, tangos, canções as mais diversas, vindo a especializar-se no gênero frevo, o ritmo brasileiro mais contagiante e popular.

Nelson Ferreira teve uma passagem tão atuante quanto brilhante no panorama musical de Pernambuco. Ainda jovem, tocou em pensões alegres, cafés, saraus e nos famosos cinemas Pathé, Moderno e Parque do Recife. Foi o pianista mais ouvido na época do cinema mudo.

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Foi, um homem do disco, tornando-se diretor artístico da Fábrica Rozenblit, instalada em Pernambuco, cuja contribuição foi marcante nessa área. Criou também, a partir dos anos 40, uma orquestra de frevo que não só ficou famosa em sua trajetória local, mas também extrapolou as fronteiras de nossa região, conseguindo sucesso a nível nacional.

Seu sorriso aberto e franco, sua bondade, seu espírito nativo e criativo, valeram-lhe muitos amigos nos mais variados segmentos da sociedade. Alguns, tornaram-se seus parceiros musicais, como Sebastião Lopes, “O Bom Sebastião”, no dizer de Getúlio Cavalcanti; Ziul Matos, Aldemar Paiva e tantos outros nomes famosos da radiofonia pernambucana.

 Compôs sete evocações musicais, famosas em todo o Brasil, homenageando a carnavalesco, jornalistas, velhos companheiros e a outros, verdadeiros imortais da poesia e da música, como Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Athaulfo Alves, Lamartine Babo e Francisco Alves.

Várias gerações, ao som da Orquestra de Nelson Ferreira e sob sua batuta, brincaram carnavais inesquecíveis. Seu frevo é eterno pela força criativa e pelo conteúdo popular. Seus amigos surgiam de todos os lados, oriundos de todas as camadas sociais, sem preconceitos, como o ferver do ritmo que o tornou imortal.

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Nelson é um dos nordestinos que possui o maior número de músicas gravadas na história da discografia brasileira, embora grande parte de suas criações seja desconhecida do resto do Brasil. Sua produção, ao lado da de outros pernambucanos como Raul e Edgar Morais, Zumba, Levino Ferreira, Irmãos Valença,Luiz Gonzaga e Capiba, entre alguns outros, é de uma importância enorme no estudo das manifestações músico-sócio-culturais de nossa região.

Inicia-se na discografia nacional a partir de 1924 com a música “Borboleta não é ave”, em ritmo de samba, gravada pelo Grupo do Pimentel, em disco Odeon de no 12.2381, lançada no carnaval brasileiro daquele ano. Depois, vieram as marchas pernambucanas, as valsas, os frevos, a incursão no rádio, veículo onde pode aprimorar e divulgar o seu talento, aproximando-se, o compositor, cada vez mais, pela sua popularidade na região, das fábricas de disco e dos maiores intérpretes do seu cast.

Participavam, então, desse cast, nomes como o de Francisco Alves, Almirante, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo, Joel e Gaúcho, Valdi Azevedo, Inezita Barroso, Augusto Calheiros, Minona Carneiro, Dircinha Batista, Nelson Gonçalves, uma infinidade de orquestras, além de intérpretes pernambucanos do maior valor, como Claudionor Germano e Expedito Baracho. E todos eles, sem exceção, foram veículos da imortalização da música do grande maestro.

nel11Sua importância como compositor popular, parece evidente, apenas, na produção de frevos. Nas primeiras décadas do século, no entanto, Nelson Ferreira compôs valsas que marcaram época nos cinemas, nos bailes dos clubes sociais de todo o Nordeste, nas reuniões familiares. Valsas tão aplaudidas na região quanto as mais populares vienenses. Tão marcantes, essas valsas, que valeu, certa vez, do escritor Nilo Pereira, sobre elas: “Nelson Ferreira, feiticeiro do piano, fixador dum tempo que as suas valsas revivem como se estivessem falando. Se meia hora antes de sair o meu enterro, tocarem as valsas de Nelson, velhas valsas tão íntimas do meu mundo, irei em paz, sonhando.”

Sua projeção musical, em termos de Brasil, evidenciou-se de forma efetiva em 1957, quando tornou, definitivamente popular, o frevo de bloco, através de sua “Evocação no 1”, sucesso no carnaval de todo o país, onde ele resgata, com saudade, momentos inesquecíveis do carnaval do Recife.

 “Felinto, Pedro Salgado
Guilherme, Fenelon,
Cadê seus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluza,
Pirilampos, Apos-Fum,
Dos carnavais saudosos” (…)

nel01Em 1973 a Fábrica de Discos Rozenblit resgatou em quatro Lps, uma produção de 50 anos de música do querido maestro, abrangendo valsas e frevos de rua, de bloco e canção, numa coletânea documental que não apenas revela o talento e a criatividade de Nelson Ferreira, mas que é um retrato de nossa própria história sócio-cultural, feito através da música, atingindo às camadas mais distintas da sociedade por diversas gerações.

Nelson destacou essa história, não apenas revivendo pessoas e nomes famosos, mas também homenageando a cidade através de suas ruas. Muitas delas, hoje, não existem mais. O progresso, com todas as suas conseqüências, fez o seu trabalho, destruindo-as e, com elas, parte da história da cidade do Recife ou dando-lhe novos nomes, o saudoso maestro, no entanto, preservou-as, plenas de vida em seus versos.

“Ruas de minha infância
Quantas lembranças deixaram em mim
Augusta… Hortas… Alecrim…” (…)

Fez também adivinhações, brincou de “Boca de Forno”, de “Coelho sai”; fez evocações, falou de sua “Veneza Americana” e de seus tipos populares; da Revolução de 30, da II Guerra Mundial, dos momentos românticos, alegres e tristes; disse da natureza humana, da tradição e dos costumes de sua gente.

Antes de morrer, fez questão de demonstrar a enorme gratidão pela cidade que o fez seu cidadão:

“Olhar o meu Recife,
Amar a sua gente
Que a graça da bondade
Sempre me concedeu.
Vivendo um mundo assim
De ternura e de beleza
Quanto é bom envelhecer
Assim como eu.” (…)

Ainda em vida foi homenageado por prefeitos, governadores, clubes e entidades, tendo recebido das mãos do Presidente Médici, a condecoração como Oficial da Ordem Rio Branco.

O maestro Vicenti Fittipaldi declarou, em depoimento para um livro sobre Nelson Ferreira, ao médico, ator e compositor Valter de Oliveira: “Ele era como Mário Melo, Ascenso Ferreira, Valdemar de Oliveira, uma das instituições da cidade. Era, com sua música, aquilo que Garrincha foi com o seu futebol, a “alegria do povo”. Tenho plena convicção de que daqui há duzentos anos, “Gostosão” e a “Evocação”, serão tocados e cantados pela gente do Recife: não serão mais de Nelson Ferreira, serão folclore; como são “Casinha Pequenina”, “Prenda Minha” e o “Meu Limão, meu Limoeiro” que, sem dúvida, também tiveram um autor.”

nelsonCasado desde 1926 com Dona Aurora, que durante toda sua vida lhe serviu de musa inspiradora, além de companheira, amante a amiga, Nelson confessava sempre aos amigos que os maiores orgulhos de sua vida era ser pernambucano e poder despertar para Aurora. Foram anos e anos de doce felicidade com o filho e depois os netos, no antigo casarão da Av. Mário Melo, onde hoje se encontra a Praça Nelson Ferreira, na qual, em sua homenagem, lhe foi erigido o busto.

Nelson Ferreira, veio a falecer no dia 21 de dezembro de 1976, no Hospital Português do Recife e seu corpo foi transportado para o “hall” da Câmara Municipal, onde foi velado. O itinerário, em direção à sua última morada, ele o fez nos braços do povo ao som dos seus frevos e evocações.

Quando seus olhos se cerraram pela última vez, escreveu Gilberto Freyre no Diário de Pernambuco: “O vazio que deixa é o que nos faz ver como era grande pela sua música, pelo seu sorriso, pela sua fidalguia de pernambucano.”

Renato Phaelante da Câmara

Discografia

Acervo da FJN • discos e partituras

fonte: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=208&Itemid=193

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